Words are spaces between us

A alma está para lá das palavras, encontra-se escondida nas vírgulas que separam os sentimentos latentes nas frases ditas inconscientemente.
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

No silêncio do olhar

"No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade"

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

 


Um dia gostaria de me descrever como Picasso das palavras, transpor para o papel a minha realidade, o que vivo de forma intensa e honesta fora de jogos e controvérsias, mostrando o meu rosto e tudo o que nele está tatuado pelo tempo e pelas barreiras que se impuseram a mim e ao meu caminho, para mais tarde, quando a coragem falhar e a dor contaminar cada poro do meu corpo, serem as frases escritas, o testemunho de tudo o que fui e vivi um dia no passado, o meu resgate e a reserva da força que se esgotou na minha alma.
Vou tocando nas teclas do piano que contempla a minha vida, produzo a acústica que me envolve e me eleva ao desconhecido, um horizonte perfeito a meus olhos, longe do mundo que hoje vivo, pobre em medos e inseguranças e rico em paixão, felicidade e vitalidade. Neste lugar sem nome ou história encontro-me eu em cada canto, um retrato gasto, sem cor, apenas um rasto de alma que sopra em direcção ao sol que me aquece a face e me magoa os olhos, cegando-me sempre que me aventuro a olhar mais longe e vislumbro a sua forma e cor.
Procuro em vão por ti, há muito que te perdi o rasto e dificilmente te encontrarei perdido nas ruas que me viram crescer e tornar-me no que sou hoje, não aos olhos daqueles que simplesmente viraram costas e me empurraram violentamente para fora das suas vidas, censurando cada palavra de súplica ou saudade, ignorando as lágrimas que verteram a cada vez que aclamava pelos seus nomes com uma réstia de esperança na voz rouca de esforço e desilusão, mas sim tu que sempre estiveste guardado no meu bolso, acompanhando-me em cada decisão e aventura, procurando nas minhas palavras o meu velho eu que conheceras e o novo pelo qual te apaixonaste. Talvez também tu acabaste por ceder e desistir do que sou, abandonar o barco e nadar até à areia onde tudo é sereno, longe da tempestade que crio a cada vez que remo contra a maré.
Uma chama nasce por entre as folhas caídas que secam pela falta de vida no ar, o oxigénio falha e com ele a morte rasteja pelo chão que um dia pisei em plena primavera. O fogo consome o que um dia pensamos ter sido tudo, as recordações materiais do nosso amor, os objectos que um dia nos ajudaram a lembrar o que fomos um ao outro, o papel que testemunhou a paixão a crescer e a fundir-se em cada palavra escrita pelas minhas mãos suadas de tanto sentimento acumulado nas leves expressões que revelam tudo o que sinto sempre que o finjo desconhecer.
Talvez a distância não esteja eminente, mas a verdade é que até as palavras conseguem ser espaços entre nós, os silêncios que um dia pensei fazerem parte da nossa vida passaram a significar mais do que um dia poderia sequer imaginar, é neles que te sinto, a tua respiração que denuncia o que sentes, o inconsciente que negas mas que eu tão bem conheço. Cada dia passa e cada vez a minha mente se abre para conhecer a tua, ver-te como um espelho que reflecte o que és, o brilho que nasce no teu olhar e contempla o teu corpo, iluminando-o na penumbra que por vezes te encontras.
Não será esse o teu grande medo? O abismo que constróis sempre que me apertas junto a teu peito, sempre que foges com palavras vãs que nada me dizem mas que para muitos talvez dissessem tudo, talvez sejam elas a saída que encontras para fugires do que verdadeiramente temes, amar-me, saberes que inconscientemente entregaste-te a mim, não uma parte, um fragmento que facilmente reporias, deste-me o que és, tudo, sem tirar nem pôr, e agora o que te resta? Nada, pois tu estás guardado no meu coração a sete chaves e por mais que digas, por mais abecedários de palavras vazias que construas em torno de nós, eu sei que basta uma impressão, um toque da minha mão, para que te entregues novamente, tu em pleno, sem máscaras ou ilusões, o teu verdadeiro eu.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ouvi dizer

"Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura, ora amarga, ora doce.
Para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura."






A verdade é que até hoje caminhámos contra nós, tudo aquilo que acreditámos fielmente, fizemos de nós contradições, não apenas em palavras mas também em pensamentos. Demos as mãos nos momentos improváveis, fizemos dos nossos corpos o vento, fugindo quando na atmosfera imperava o desejo de amar, nos momentos em que o sentimento guiava os nossos passos, tornando a nossa mente doente de amor. Tornamo-nos viciados na paixão, no arrepio constante das peles sedentas, das bocas secas de melodia, do olhar cravado no fundo da alma.
Hoje caminho numa cidade vazia contemplada pelas feições claras das casas, pálidas, que morrem lentamente, uma morte de alma. Nada se encontra nela a não ser o vazio das sombras, das vozes a voarem pelo infinito, o eco dos batimentos latentes dos corações vivos, das gargalhadas que aqueciam o vento, dos olhares que paralisavam o tempo e o espaço.
Nada vejo a não ser o teu nome negro escrito a cada recanto, nos espaços que um dia foram nossos e naqueles que a nós nada dizem.  Ao fundo ouço restos da tua voz, da melodia que invadia a minha mente e se destinava ao meu coração, não sei o que dizes, mas entendo-te, cada sílaba proferida no culminar da saudade. Também a sinto, uma saudade negligentemente ignorada, que impera nos momentos de solidão, aqueles em que me resgatavas e me mostravas a luz da felicidade.
Custa deixar-te entrar, revelar-te tudo o que sou, não apenas as qualidades, mas os defeitos, a cruel realidade que todos nós escondemos no fundo do cofre, a que tememos como a morte. Ainda temo as palavras, a revelação omnipresente, o sentimento cego que ganha espaço a cada vitória face à Razão. Caminhas lentamente, recuando a cada medo, pacientemente me abraças, cativando-me no teu corpo, ouvindo aquilo que mais temes, o bater do meu coração. Proferes palavras doces, disfarçando o que te vai na alma, o que leio nos teus lábios secretamente, fugindo mais uma vez daquilo que já é certeza há muito.
Não há como apagar o que sentimos, eu sei, mas por vezes parece tão mais fácil ignorar que existes, quer dizer, que existe o que tenho para te oferecer, pois esta não é a nossa cura, é sim o caminho para o descontrolo, a fuga das regras que nós próprios impomos como humanos que somos, omitindo a fraqueza e tudo o que dela deriva.
Quero que me ouças atentamente, aquilo que te digo em meias palavras, suspiros e gargalhadas nervosas, na pressa de chegar a ti sem sentido, pois um dia quero ouvir-te dizer que ambos estávamos certos, que todo o paradoxo não foi um dia utopia, e que no futuro seremos nós, tudo aquilo que ambos sabemos mas que nem as palavras poderiam um dia exprimir.