Words are spaces between us

A alma está para lá das palavras, encontra-se escondida nas vírgulas que separam os sentimentos latentes nas frases ditas inconscientemente.
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Vê-lo em mim

"Se o tens de ouvir tens de o fazer
e o mundo diz ' tu tens de mudar'
só não lavou as tuas mãos
mas tens as mãos do mundo para lavar
afasta-te um pouco mais
e dorme em paz que tu não tens de dar
o teu sorriso assim
esgotando o teu juizo assim
tu não tens de mudar
quem te quer mudar não te quer conheçer
tu não tens de o fazer."

Manuel Cruz, "Não tens de mudar"


Nos momentos vazios do tempo questiono-me quem fui e quem sou, o que guardo na gaveta da alma, a porta que um dia procurei saber e abrir. Busco no corpo marcas que me distingam, cicatrizes que contêm a minha história, velha e expressiva, que sustenta o meu corpo e os meus gestos pesados que procuram repouso e solidão. Não me reconheço junto ao espelho embaciado pela respiração ofegante, o ar que expulso a cada batimento que aperta o meu peito e me rasga o coração.
Eu queria ser alguém melhor, um traço perfeito no esboço rápido de carvão, um figurante na fotografia, uma simples palavra do livro que imagino escrever. Mas quem diz ser perfeito? O mundo é cheio de caminhos errados e eu, no meu subconsciente, decidi percorrê-los a todos, ouvindo os carros a gritar do outro lado da estrada, iluminando os meus passos, nos dias que chovem no meu peito, molhando-me o corpo inconsciente e adormecido.
Não sou pessoa certa, por vezes penso ser o centro do mundo, a lenda da verdade, mas quando a luz foge, a sombra reflecte o meu lado negro e lentamente me vejo, o meu outro eu ou o que penso ser. Procuro não olhar, ignoro o brilho das estrelas do céu e salto de caminho em caminho, procurando quem sabe o meu destino, a casa que aguarda para me abrigar de todos os meus medos e anseios.
Sonho um dia poder demolir o meu lado contraditório, mas admito que sem ele não sou nem metade de mim, estarei eu a desejar apagar-me e declarar o início da guerra face a mim mesma e a todo o bolso carregado de ideias e paixões?
A lição virá depois e com ela voltarei a ser o que fui quando nasci, uma tela branca em busca da tinta e da impressão que me pinte o corpo e a minha vida longe de reticências e borrões, um retrato claro e pouco confuso do destino que escolhi para mim.
Hoje sou rainha do meu mundo, a dona do meu caminho, sou quem irá escolher o que virá a seguir e mostrar quem sou quando os erros reaparecerem e me tentarem arrastar para o fundo carregado pela atmosfera do arrependimento. É assim a vida, a um pé da felicidade e a dois da tristeza.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

No silêncio do olhar

"No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade"

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

 


Um dia gostaria de me descrever como Picasso das palavras, transpor para o papel a minha realidade, o que vivo de forma intensa e honesta fora de jogos e controvérsias, mostrando o meu rosto e tudo o que nele está tatuado pelo tempo e pelas barreiras que se impuseram a mim e ao meu caminho, para mais tarde, quando a coragem falhar e a dor contaminar cada poro do meu corpo, serem as frases escritas, o testemunho de tudo o que fui e vivi um dia no passado, o meu resgate e a reserva da força que se esgotou na minha alma.
Vou tocando nas teclas do piano que contempla a minha vida, produzo a acústica que me envolve e me eleva ao desconhecido, um horizonte perfeito a meus olhos, longe do mundo que hoje vivo, pobre em medos e inseguranças e rico em paixão, felicidade e vitalidade. Neste lugar sem nome ou história encontro-me eu em cada canto, um retrato gasto, sem cor, apenas um rasto de alma que sopra em direcção ao sol que me aquece a face e me magoa os olhos, cegando-me sempre que me aventuro a olhar mais longe e vislumbro a sua forma e cor.
Procuro em vão por ti, há muito que te perdi o rasto e dificilmente te encontrarei perdido nas ruas que me viram crescer e tornar-me no que sou hoje, não aos olhos daqueles que simplesmente viraram costas e me empurraram violentamente para fora das suas vidas, censurando cada palavra de súplica ou saudade, ignorando as lágrimas que verteram a cada vez que aclamava pelos seus nomes com uma réstia de esperança na voz rouca de esforço e desilusão, mas sim tu que sempre estiveste guardado no meu bolso, acompanhando-me em cada decisão e aventura, procurando nas minhas palavras o meu velho eu que conheceras e o novo pelo qual te apaixonaste. Talvez também tu acabaste por ceder e desistir do que sou, abandonar o barco e nadar até à areia onde tudo é sereno, longe da tempestade que crio a cada vez que remo contra a maré.
Uma chama nasce por entre as folhas caídas que secam pela falta de vida no ar, o oxigénio falha e com ele a morte rasteja pelo chão que um dia pisei em plena primavera. O fogo consome o que um dia pensamos ter sido tudo, as recordações materiais do nosso amor, os objectos que um dia nos ajudaram a lembrar o que fomos um ao outro, o papel que testemunhou a paixão a crescer e a fundir-se em cada palavra escrita pelas minhas mãos suadas de tanto sentimento acumulado nas leves expressões que revelam tudo o que sinto sempre que o finjo desconhecer.
Talvez a distância não esteja eminente, mas a verdade é que até as palavras conseguem ser espaços entre nós, os silêncios que um dia pensei fazerem parte da nossa vida passaram a significar mais do que um dia poderia sequer imaginar, é neles que te sinto, a tua respiração que denuncia o que sentes, o inconsciente que negas mas que eu tão bem conheço. Cada dia passa e cada vez a minha mente se abre para conhecer a tua, ver-te como um espelho que reflecte o que és, o brilho que nasce no teu olhar e contempla o teu corpo, iluminando-o na penumbra que por vezes te encontras.
Não será esse o teu grande medo? O abismo que constróis sempre que me apertas junto a teu peito, sempre que foges com palavras vãs que nada me dizem mas que para muitos talvez dissessem tudo, talvez sejam elas a saída que encontras para fugires do que verdadeiramente temes, amar-me, saberes que inconscientemente entregaste-te a mim, não uma parte, um fragmento que facilmente reporias, deste-me o que és, tudo, sem tirar nem pôr, e agora o que te resta? Nada, pois tu estás guardado no meu coração a sete chaves e por mais que digas, por mais abecedários de palavras vazias que construas em torno de nós, eu sei que basta uma impressão, um toque da minha mão, para que te entregues novamente, tu em pleno, sem máscaras ou ilusões, o teu verdadeiro eu.