Arrepio-me a mim mesma, com o toque que um dia te pertenceu, que te fez de meu porto de abrigo, porta de saída, mundo por descobrir, refúgio de mim, do perigo eminente que se debroçava em nós e nos separava, sem nunca o ter feito realmente. Os meus olhos vão fechando, provocando a reflexão que me leva a ti, que me encaminha para os pensamentos mais longínquos, remotos, que um dia fizeram parte de nós, do nosso puzzle de pedaços de alma espalhados por nossos corpos marcados pela paixão e desejo.
Respiro vezes sem conta, acalmo a pele que arrepia levemente, o coração que bate por mim, por aquilo que um dia fui e que no fundo continuo a ser, o velho lugar do meu eu, comtemplado pela pálida felicidade que detenho, que faço de meu sorriso assombrado por tudo aquilo que vivi, que senti, que enfrentei como ondas do oceano que nos separa, que nos separou e que irá continuar a fazê-lo.
E eu agora aclamo pela tua presença, quase apagada da minha memória, mas presente em tudo aquilo que se encontra no meu destino já percorrido, o mais desejado, mais pedido por mim, pela minha ânsia de te ter.
Escondo as minhas expressões marcadas, desenhadas na minha jovem face envelhecida por tudo aquilo que hoje me pertence, que se acomulou no meu livro de vivências e memórias, carregado no meu coração que se encontra pela metade, a outra continua no lugar de sempre.
A calçada parece limpa, coberta pela neve que vai caindo, cobrindo todo o rasto de miséria e saudade. No entanto o disfarce voa pelo ar, acompanhando o vento que sopra, que corre contra o tempo, em vão. Aqui vejo as tuas pegadas, quase inexistentes, como se apenas a alma aqui tivesse passado, mas eu sei que nem ela apareceu, a tua presença inconsciente é aquilo que me resta. Lado a lado caminhamos, para o destino incógnito que se desenha à nossa frente, e olhando em redor apenas vejo o teu olhar, o teu sorriso, as tuas expressões perfeitas, correctas e bem delíneadas. Meu ser perfeito, meu pedaço de alma, minha metade de espírito!